CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A guerra da Coreia e os perigos actuais na Península Coreana

Publicamos a seguir um texto sobre a Guerra da Coréia, retirado da edição nº 33 de O Militante, revista teórica do Partido Comunista Português.


A guerra da Coreia e os perigos actuais na Península Coreana


Seis décadas após a terrível guerra da Coreia, os ventos da agressão e guerra imperialistas continuam a soprar de forma perigosa em torno da Península Coreana. A tensão alimentada pelo imperialismo serve de pretexto para que os EUA continuem a manter, 65 anos após o fim da II Guerra Mundial, milhares de soldados, bases militares e armas nucleares no Japão e na Coreia do Sul, no âmbito da sua política de dominação planetária. Essa presença, que desde há décadas limita a soberania e independência dessas potências asiáticas, tem hoje – como há 60 anos – um outro alvo: o gigante chinês, cuja importância mundial é cada vez maior e decisiva.
Os planos de ataque de Clinton e Bush

«Oito anos antes da Administração Bush ter decretado a sua estratégia de defesa nacional,  proclamando a doutrina [do ataque] preemptivo, os Estados Unidos estiveram à beira de iniciar uma guerra para impedir a Coreia do Norte de vir a ter armas nucleares. […] Nós os dois, então no Pentágono, preparámos os planos para atacar as instalações nucleares da Coreia do Norte e para preparar centenas de milhar de tropas americanas para a guerra que provavelmente se teria seguido». Estas palavras foram escritas em Outubro de 2002 (1). Os seus autores foram o Ministro e Vice-Ministro da «Defesa» dos EUA, no primeiro Governo do Presidente Clinton. A confissão é elucidativa, porque os seus autores estão orgulhosamente conscientes da natureza totalmente criminosa dos seus planos: «Passámos boa parte do primeiro semestre de 1994 a preparar a guerra na Península Coreana. […] Preparámos um plano pormenorizado de ataque [à central de produção de energia atómica de] Yongbyon, com bombas guiadas de precisão. Estávamos muito confiantes de que a poderíamos destruir sem provocar uma fusão [do reactor] que libertasse radioactividade para a atmosfera. […] Mas um ataque a Yongbyon, embora cirúrgico em si mesmo, dificilmente seria cirúrgico no seu efeito global. O resultado provável desse ataque seria um surto das forças militares, antiquadas mas numerosas e fanáticas, da Coreia do Norte, que atravessariam a Zona Desmilitarizada que separa a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. […] Na eventualidade dum ataque [?!?] norte-coreano, as forças dos EUA, trabalhando lado a lado com o exército sul-coreano e utilizando bases no Japão, rapidamente destruiriam o exército e o regime norte-coreano. Mas ao contrário da Tempestade no Deserto (2), que foi combatida nos desertos árabes, os combates noutra guerra da Coreia teriam lugar nos subúrbios densamente povoados de Seul. […] Milhares de tropas dos EUA e dezenas de milhar de tropas sul-coreanas morreriam e milhões de refugiados encheriam as estradas. As baixas norte-coreanas seriam ainda maiores. A intensidade dos combates seria a maior a que o mundo já teria assistido desde a última Guerra da Coreia».

É difícil saber o que é mais criminoso nestas declarações dos Ministros do anterior Presidente «democrata» dos EUA. À arrogância imperial (no seu auge em 2002) de considerar que os EUA têm o direito de atacar militarmente qualquer país que não se submeta aos seus ditames, soma-se a criminosa convicção de que bombardear uma central nuclear não traz consequências catastróficas – ou, mais provavelmente, a total indiferença perante um tal desenlace. Repare-se como nas macabras contabilizações de baixas resultantes duma guerra desencadeada pelo ataque dos EUA, estão ausentes as baixas civis. Em 2003, outro artigo, no New York Times, afirma que planos idênticos estavam a ser preparados pela Administração Bush, e que «poderão ser usadas armas nucleares tácticas» contra a Coreia do Norte (3).

É importante relembrar estas confissões dos senhores da guerra de Washington, porque quando se trata de falar da Península Coreana, ou da República Democrática e Popular da Coreia (RDPC), a quase totalidade da comunicação social afina por um único diapasão. Ao unilateralismo de regime no relato (ou omissão) dos factos contemporâneos, junta-se a falsificação da realidade histórica que nos trouxe à situação actual. E que é indispensável para a compreensão da natureza das forças envolvidas na questão coreana. Por discutíveis que possam ser aspectos da realidade ou das acções norte-coreanas, é indesmentível que a principal responsabilidade pela tensão e os perigos para a paz que emanam da Península Coreana recai sobre o imperialismo norte-americano. Como prova o seu macabro historial de agressões naquela martirizada região do globo.


A guerra de 1950-53


Faz sessenta anos, a Península Coreana estava a ferro e fogo, na primeira das grandes guerras do imperialismo dos EUA após a II Guerra Mundial. Soldados norte-americanos e chineses chegaram a enfrentar-se directamente nos campos de batalha da Coreia. A Guerra da Coreia foi de uma brutalidade extrema. Escreve o jornalista norte-americano Gregory Elich: «No primeiro ano da guerra, a 5 de Novembro de 1950, o General Douglas MacArthur (4) ordenou a destruição de “todos os meios de comunicação, todas as instalações, fábricas, cidades ou aldeias” numa região que se estendia do Rio Yalu (5) até à frente de combate. A primeira cidade a ser arrasada foi Sinuiju, e rapidamente se começou a usar o napalm nos raides aéreos contra civis. Mais de [8700 litros] (6) de napalm foram lançados sobre Pyongyang num único raide, em Julho de 1952. Bombardeamentos massivos arrasaram sistematicamente vila após vila, e os aviões dos EUA também alvejaram estações de energia eléctrica e barragens de irrigação que davam apoio aos campos de arroz. Com a destruição das barragens, as aldeias a jusante eram varridas pelas águas, espalhando a morte e destruição em larga escala. Por várias vezes durante a guerra, os EUA consideraram a utilização de armas nucleares. […] De acordo com o General Curtis LeMay, “arrasámos praticamente todas as cidades, quer na Coreia do Norte, quer na Coreia do Sul”, “matámos mais de um milhão de civis coreanos e expulsámos vários milhões dos seus lares”» (7). O relato de Elich é confirmado pelo Professor de História da Universidade de Chicago, Bruce Cumings, no seu recente livro «The Korean War» (8). Afirmando que a guerra provocou mais de 4 milhões de baixas, pelo menos metade das quais civis, Cumings cita um jornalista que «testemunhou “uma devastação completa entre o Rio Yalu e a capital” Pyongyang. Pura e simplesmente “não havia mais cidades na Coreia do Norte”» (p. 154). «No fim [da guerra], o nível de destruição urbana excedia tudo o que se verificou na Alemanha e Japão, de acordo com as estimativas da Força Aérea dos EUA» escreve Cumings (p. 159), acrescentando  que a Convenção da ONU contra o Genocídio «foi aprovada em 1948 e entrou em vigor em 1951 – precisamente quando a Força Aérea dos EUA estava a cometer um genocídio, ao abrigo da definição [da Convenção] e sob a alçada do Comando das Nações Unidas (9), contra os cidadãos da Coreia do Norte» (p. 161).

É usual ouvir-se dizer que a guerra da Coreia começou no dia 25 de Junho de 1950, a partir duma incursão de tropas da Coreia do Norte em território do Sul. Escusando-se a tirar conclusões categóricas sobre os acontecimentos da noite de 24-25 de Junho («há ainda muito para saber sobre o que se passou nesse fim-de-semana» e «informações iniciais dos serviços secretos foram inconclusivas sobre quem os teria iniciado», p. 9), o Professor Cumings chama a atenção para o facto de que incidentes de fronteira tinham sido frequentes nos meses anteriores e que «muitos dos intensos combates ao longo da fronteira que decorreram entre Maio e Dezembro de 1949 foram, segundo informações internas Americanas, iniciados pelas forças do Sul» [sob ocupação dos EUA] (p. 139). Num desse confrontos fronteiriços, «iniciado pelo Sul» em 4 de Maio de 1949, morreram «400 soldados norte-coreanos e 22 soldados sul-coreanos» (p. 140).
Noutro incidente, no Verão de 1949 «vários navios sul-coreanos invadiram as águas territoriais [do Norte] e bombardearam um pequeno porto». Cumings assinala que o então chefe fantoche da Coreia do Sul, Syngman Rhee, era fervoroso partidário dum ataque militar ao Norte (10) e que John Foster Dulles, irmão do Director da CIA e mais tarde Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA sob Eisenhower, visitou a Coreia e o paralelo 38 (fronteira das duas Coreias) uma semana antes do início da guerra (p. 6). Mas Cumings aborda outros aspectos mais de fundo da questão.


Da ocupação japonesa à partição americana


Em 1910 a Coreia foi anexada pelo Japão. A ocupação japonesa durou várias décadas, até ao final da II Guerra Mundial. Cumings assinala que «a ocupação japonesa da Coreia de 1910 a 1945 é semelhante à ocupação Nazi da França, pela forma como afectou e penetrou na consciência nacional coreana» (p. 45). A resistência coreana à ocupação foi intensa e teve um papel importante na própria China, após a invasão e ocupação japonesa do nordeste chinês, que deu origem ao Estado fantoche de Manchukuo. Segundo Cumings, coreanos desempenharam um papel de enorme importância na resistência («cerca de 80% da guerrilha anti-japonesa em Manchukuo», p. 52), incluindo no seio do próprio Partido Comunista Chinês. «Em meados dos anos 30, o homem que assumiu o nome de guerra Kim Il Sung era um chefe da guerrilha bem conhecido e formidável» (p. 44). No final da II Guerra Mundial, com tropas soviéticas a entrar na Coreia ocupada pelos japoneses a partir do Norte (que faz uma pequena fronteira com a Rússia), e os EUA ainda não presentes em território coreano, estes últimos decretaram unilateralmente o paralelo 38 como linha divisória das zonas da responsabilidade da URSS e dos EUA. Na zona sul, a ocupação dos EUA «instaurou um governo militar que durou três anos e influenciou profundamente a história da Coreia no pós-guerra» (Cumings, p. 104). Durante esses anos, os EUA recorreram aos coreanos colaboracionistas com a ocupação japonesa para formar os quadros dirigentes do futuro Estado sul-coreano. Uma semana após o desembarque de forças norte-americanas, um chefe dos serviços secretos militares dos EUA «havia descoberto “algumas centenas de conservadores” que poderiam ser bons dirigentes da Coreia no pós-guerra. A maioria tinha colaborado com o imperialismo japonês, escreveu, mas estava esperançoso de que essa mácula viesse a desaparecer. Neste grupo de pessoas estavam a maioria dos dirigentes que mais tarde viriam a gerir a política sul-coreana» (Cumings, p. 106). Em 1950, no início da guerra «quase todos os comandantes de topo do exército sul-coreano haviam servido os japoneses» (p. 44).

Os anos que antecederam a guerra foram anos de resistência e revolta da população do Sul contra a ocupação dos EUA e seus fantoches. «Uma revolta de grande dimensão abalou a ocupação americana até aos alicerces em Outubro e Novembro de 1946, e foi o culminar de numerosos conflitos, nos meses precedentes, com comités populares poderosos. Em Outubro de 1948 uma nova grande revolta verifica-se na região do porto sudoriental de Yosu, no rescaldo da qual se desenvolveu rapidamente uma resistência de guerrilhas, no fundamental baseada no Sul» (p. 111). A repressão destas revoltas pelas forças ao serviço da ocupação foi feroz e sangrenta. Cumings afirma que terão sido mortos cerca de 60 mil dos 300 mil habitantes da ilha de Cheju (p. 121) e mais de 100 mil coreanos da zona sul terão sido vítimas da violência repressiva antes do início da guerra (p. 138). Não espanta que Cumings tire a conclusão que a guerra da Coreia começou nos anos 30 e ainda não terminou (p. 65).

A divisão da Península Coreana foi formalmente consagrada com a criação em Agosto de 1948, na zona sul ocupada pelos EUA, duma República da Coreia. Um mês mais tarde é criada a RDPC, a norte do paralelo 38. O poder a Norte ficou nas mãos das forças que protagonizaram a guerra de libertação nacional contra a ocupação japonesa e a resistência à ocupação pelo imperialismo norte-americano. No Sul, como já se viu, os ocupantes colocaram no poder os colaboracionistas das duas ocupações imperialistas, tendo-se estabelecido uma feroz ditadura que apenas viria a ser abalada pelas revoltas populares dos anos 80.


Os contextos internacionais de 1950 e 2011

O conflito de 1950-53 na Coreia é inseparável do contexto internacional de então. No rescaldo da II Guerra Mundial e do papel crucial da URSS e dos comunistas na derrota do nazi-fascismo, os povos de todo o planeta davam passos enormes no sentido da sua libertação social e nacional. Em Outubro de 1949 triunfava a grande revolução chinesa, sob a direcção do Partido Comunista Chinês. Povos asiáticos colonizados pelas potências «liberal-democráticas» europeias alcançavam pela luta a sua independência (a Índia libertava-se do domínio inglês em 1947, e a Indonésia da colonização holandesa, em 1949). Nos próprios centros do imperialismo europeu, partidos comunistas que haviam contribuído decisivamente para a derrota do fascismo eram forças de enorme importância.  É neste contexto que o imperialismo norte-americano se transforma na ponta de lança da reacção mundial, para desencadear uma contra-ofensiva política, económica, social e militar, que ficou para a História com o nome de Guerra Fria. Em numerosos locais do globo essa contra-ofensiva foi tudo menos «fria». Apoiando as potências coloniais de outrora (como no Vietname, ou na Malásia), ou os fascistas e seus colaboracionistas (como na Grécia, ou na Coreia), o imperialismo recorreu a todos os meios possíveis para travar e fazer recuar a luta de libertação dos povos. A guerra da Coreia e a divisão da Península Coreana são inseparáveis desta realidade central.

As seis décadas decorridas desde a Guerra da Coreia registaram numerosas e profundas alterações na península, na região e no planeta. Mas a Península Coreana continua dividida. A luta pela sua reunificação pacífica e desnuclearização – objectivos de sempre da RDPC – permanece na ordem do dia. O fim dos combates em Julho de 1953 foi siglado por um Armistício, que nunca até hoje foi transformado em Tratado de Paz que pusesse formalmente fim à guerra e reconhecesse a existência da RDPC. A divisão da Coreia continua a servir de pretexto para a presença de dezenas de milhar de soldados dos EUA no Pacífico que, com os seus arsenais nucleares, representam um enorme e permanente perigo para a paz.
A actual e profunda crise do capitalismo mundial, a incapacidade dos centros dirigentes das potências imperialistas lhe darem resposta, a natureza particularmente grave da crise na principal – e mais fortemente armada – potência imperialista do planeta, bem como os reveses que a sua política de hegemonismo e agressão tem vindo a sofrer, são factores que tornam prementes os perigos de que o imperialismo procure fugir à crise através dum aventureiro conflito militar de grandes proporções. Quem se esquecer deste aspecto crucial não poderá compreender de onde vem o perigo de guerra fundamental nos nossos dias. E corre o risco de se vir a encontrar do lado errado da barricada.


Notas

(1) O artigo Back to the Brink, de Ashton B. Carter e William J. Perry, foi publicado em 20.10.02 no Washington Post.
(2) A primeira Guerra do Golfo, de 1991.
(3) Secret, scary plans, de Nicholas D. Kristof, New York Times, 28.2.03.
(4) Comandante das forças militares dos EUA na Coreia até à sua destituição pelo Presidente Truman em Abril de 1951.
(5) O Rio Yalu faz a fronteira entre a Coreia e a China.
(6) No original, «2300 galões».
(7) Targeting North Korea, de Gregory Elich, disponível em http://www.globalresearch.ca/articles/ELI212A.html
(8) The Korean War, de Bruce Cumings, 2010, Modern Library Edition.
(9) O Conselho de Segurança da ONU deu a sua chancela à intervenção militar dos EUA em 25 de Junho de 1950, aproveitando a ausência da URSS que, desde Janeiro desse ano, boicotava as reuniões do Conselho de Segurança, em protesto pelo facto de que após a Revolução Chinesa de 1949, o lugar da China nesse órgão (e o respectivo direito de veto) ter sido entregue ao governo fantoche de Taiwan – situação incrível que se manteve até 1971.
(10) Veja-se também o livro do jornalista australiano Wilfred Burchett «Novamente a Coreia?», edições Seara Nova, 1969, p. 237.


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