CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Dez considerações sobre a questão da bomba de hidrogênio e sua relação dentro da milenar história coreana


1 - Desde os primórdios da sua existência a Coreia se encontrou ameaçada por gigantes vizinhos. Sua formação geográfica se dá nada menos do que entre quatro grandes potências: China, Japão, Mongólia e Rússia. O povo coreano começou a se formar há cerca de 5.000 anos, às margens dos rios Yalu e Daetong. Nos três primeiros séculos da era cristã, surgiram os reinos de Koguryo (região norte), Paekche (sudeste) e Silla (sudeste). Entre os séculos VII e X ocorre a unificação dos três reinos. Diante das constantes ameaças, que incluiu até mesmo a invasão por parte do poderoso Império Mongol (fundado por Gengis Kahn), a Coreia (então reino de Koryo) buscou consolidar alianças com uma nação mais forte e aliada, tornando-se um Estado tributário da China - ou seja, oficialmente parte do Império Chinês, mas gozando, na prática, de grande autonomia. Entretanto, ainda assim era necessário garantir a independência diante dos chineses. Uma das medidas foi a criação de uma alfabeto próprio (o hangeul), em substituição dos ideogramas chineses, no século XV.

2 - No final do século XIX, o Japão, que sempre foi uma ameaça à soberania coreana, teve seus impulsos expansionistas intensificados. A Coreia é invadida e forçada a contrair uma série de "tratados desiguais", perdendo o controle sobre seu comércio externo e suas águas, por exemplo. Em 1910 a invasão se completa e a Coreia é oficialmente transformada em colônia japonesa. Inicia-se um dos períodos mais tristes da história coreana. Um dado que ilustra essa brutalidade é o que se refere à escravização sexual das mulheres coreanas. Cerca de 200.000 mulheres foram capturadas para servir sexualmente às tropas japonesas.

3 - A invasão termina apenas com o fim da II Guerra Mundial, quando, juntos do próprio povo coreano (que enfrentou o Japão através da guerra de guerrilhas), as tropas aliadas libertam a península. A União Soviética ocupa a parte Norte e os Estados Unidos ocupam a parte Sul. É aí que emergem os problemas que se prolongam até os dias de hoje. No Norte, a União Soviética se retira poucos anos depois e os comitês populares que surgiram na luta contra o Japão assumem o controle do país. Enquanto no Sul, os EUA dissolvem esses comitês e colocam na liderança do governo Syngman Rhee (um fantoche que viveu quase quatro décadas de sua vida nos EUA). 

4 - De qualquer forma, ainda com a maior ou menor intervenção das grandes potências (no final da II Guerra a divisão entre Norte e Sul se deu de forma quase informal a partir do paralelo 38), o povo coreano fez alguns esforços para a reunificação da pátria (que foi una pelo menos durante mil anos). Esses esforços foram sabotados em 1948, quando a Coreia do Sul se proclama nação independente, levando o Norte a fazer o mesmo. A partir daí várias tensões ocorrem na fronteira e em 1950 estoura a guerra entre os dois lados. Guerrilheiros sul-coreanos já lutavam contra o governo fantoche desde 1946.
  
5 - Tendo em vista que a guerra era entre um lado no qual os órgãos de poder poder, surgidos durante a resistência anti-japonesa, estavam no controle (o Norte) e o outro era liderado por fantoches dos EUA (o Sul) não é de surpreender que o próprio povo sul-coreano apoiasse o Norte no conflito. O resultado desse apoio? Em 2 meses o Norte já ocupava a capital sul-coreana, Seul, e implementava medidas como a reforma agrária e a igualdade jurídica plena entre homens e mulheres. O conflito estaria aí findado e a Coreia milenar reunificada se não fosse a intervenção dos EUA, que invadiu a península em prol do seu aliado. Diante da situação, a China, liderada por Mao Tsé-Tung, resolve intervir em apoio ao Norte, levando o conflito a uma situação de equilíbrio. O presidente dos EUA, Harry Truman, chegou a autorizar o uso da bomba atômica contra os coreanos, optando-se, porém, por outras armas, como o napalm e o fósforo - usadas indiscriminadamente contra a população civil.
  
6 - Apesar do armistício (grosso modo, uma "paz temporária") ter sido assinado em 1953, até hoje não há um acordo de paz definitivo. Oficialmente ainda há uma situação de guerra, ainda que "em pausa". Os EUA mantém seu apoio e intervenção no Sul - o que inclui, inclusive, bombas atômicas apontadas para o Norte.
  
7 - Nota-se, portanto, que ao longo da sua milenar existência o povo coreano, cujo território é menor que o de vários estados brasileiros, sempre teve sua soberania ameaçada. Situação agravada com a intervenção criminosa dos Estados Unidos no mundo, que além de sustentar a divisão do país ainda comanda um bloqueio econômico ao Norte há décadas. A única forma de garantir sua independência e SE DEFENDER é através de um forte aparato bélico, o que inclui até mesmo armas nucleares.
  
8 - A atual política nuclear vigente no mundo é hipócrita e covarde. O acordo assinado em 1970 dá o direito a cinco potências (EUA, China, Rússia, França e Inglaterra) de possuir a bomba nuclear e proíbe os demais povos do mundo! Ou seja, está em voga um acordo que diz que uma meia dúzia de países pode ter a bomba atômica enquanto aos demais cabe aceitar e abaixar a cabeça. No caso coreano tal situação é ainda mais absurda, já que duas destas cinco potências fazem fronteira com seu território e uma terceira, os EUA, é uma ameaça real. Como já foi dito, os EUA, que possuem a bomba atômica, já invadiram a Coreia (1950-1953), aprovaram o uso da bomba atômica contra seu povo durante essa invasão e até hoje sustentam não só a divisão do país como ainda mantém apontado para a Coreia do Norte um arsenal nuclear a partir do Sul. A única forma do povo coreano se defender é alcançando a paridade bélica. Um país que recentemente foi invadido anos depois de abrir mão de seu programa nuclear foi a Líbia. Os coreanos não querem ter o mesmo destino - e estão no seu mais elementar direito, o direito à sobrevivência. Na década de 2000 romperam com esse grande tratado desigual, declarando ter um programa nuclear secreto e, a partir de 2006, tiveram sucesso em testes com bombas atômicas "comuns". O atual desenvolvimento da bomba de hidrogênio, a arma mais poderosa conhecida pelo humanidade até então, pode aumentar em até 100 vezes o potencial nuclear bélico coreano. Vale ressaltar que os EUA já possuem bombas de hidrogênio há décadas.
 
9 - É interessante notar que, ao contrário do propagado, o fato da Coreia do Norte desenvolver armas nucleares não é uma ameaça à paz mundial, mas garantia desta. A única coisa que pode impedir uma potência de promover guerras e, em casos extremos, usar a bomba nuclear é uma força contrabalanceando seu poderio. Foi isso que vimos na Guerra Fria, por exemplo. Por qual motivo, mesmo com EUA e URSS tendo várias bombas atômicas, a mesma não foi usada? Pelo fato de que o uso de um lado implicaria necessariamente no uso do outro - e a destruição de ambos. Foi o que Stálin disse a repórteres dos EUA quando do desenvolvimento da arma nuclear por parte da URSS: "Eles gostariam que os Estados Unidos fossem os monopolistas da fabricação da bomba atômica para que os Estados Unidos tivessem a ilimitada possibilidade de amedrontar e fazer chantagem nas suas relações com os outros países. Mas, em que se baseiam e com que direito pensam assim? Os interesses da manutenção da paz exigem, por acaso, semelhante monopólio? Não! Será mais certo dizer que acontece precisamente o contrário. Que os interesses da manutenção da paz exigem antes de mais nada a liquidação de semelhantes monopólios e, depois, a proibição incondicional da arma atômica. Penso que os partidários da bomba atômica só aceitarão a proibição da arma atômica se virem que já não são mais os monopolistas de tal arma."

10 -
Apesar dos esforços militares e econômicos, o povo coreano não se dobrou e resiste firmemente há mais de meio século. Tendo em vista quebrar essa resistência, um dos instrumentos utilizados pelos EUA para tentar dobrar seu adversário é o cerco midiático, buscando colocar os povos do mundo contra os coreanos - utilizando-se dos grandes meios de comunicação. Assim, vale responder, ainda que brevemente, a algumas farsas das mais presentes. a) "a Coreia do Norte é uma monarquia": como foi dito, o Estado norte-coreano surge a partir das bases populares desenvolvidas na luta contra o Japão. São frutos legítimos do povo. Além disso, todos os dirigentes políticos desse país (inclusive o Kim Jong Un) passaram/ passam por um processo de eleições que começa nos bairros e vai até a nação (semelhante ao que ocorreu e ocorre na maior parte das nações socialistas), cujo principal poder se dá na Assembleia Nacional (poder legislativo), que, por sua vez, elege o triunvirato que dirige a nação (no qual Kim Jong Un é uma das três figuras). Na Coreia do Norte busca-se construir uma democracia de novo tipo, não liberal, socialista. Vale lembrar que na Coreia do Sul vigorou durante décadas uma das mais brutais ditaduras militares que se tem conhecimento e que mesmo hoje, sob regime liberal, há perseguição a sindicalistas, comunistas e/ou apoiadores da reunificação (por qual motivo a grande mídia não fala nada disso?) b) "Kim Jong Un é um ditador que oprime o seu povo": a cultura coreana é profundamente marcada pelo confucionismo (assim como a nossa é marcada pelo cristianismo), não a nível religioso (pois são, no geral, ateus), mas sim de costumes e "visão de mundo". Entre as características do confucionismo que se notam na política está a visão da nação como uma grande família liderada pelo "chefe" e o culto aos antepassados. Faço essa observação pelo fato de só ser possível entender a relação do povo coreano com Kim Jong Un e, há pouco, com Kim Jong Il (seu antecessor) se identificarmos o papel do avô de Un e pai de Il, Kim Il Sung. Kim Il Sung, filho de militantes anti-imperialistas, aos 14 anos de idade já era uma importante figura na luta guerrilheira contra o Japão. Após a II Guerra Mundial consolidou-se como líder da Coreia do Norte e à frente de seu povo liderou a primeira derrota militar imposta aos EUA em toda a história (com o armistício em 1953). Mas, apesar de tudo, o país encontrava-se literalmente destruído. Reza a lenda que em Pyongyang (capital da Coreia do Norte) não sobrou um único prédio de pé. Kim Il Sung pegou uma nação completamente destruída e fez dela uma potência em poucos anos. Ou seja, Kim Il Sung, desde a juventude, comandou seu povo na vitória contra duas das maiores potências imperialistas da história (EUA e Japão) e ainda reconstruiu sua nação após a guerra. Todo esse legítimo apreço do povo coreano é culturalmente "transferido" para os descendentes de Kim Il Sung, cuja a escolha é formalmente aceita pelo povo através de eleições (conforme comentado); c) "enquanto o povo passa fome, preferem desenvolver bombas atômicas": não existe nenhum direito garantido sem soberania. Ter mais ou menos bombas não é opção, é necessidade. De qualquer forma, não se planta arroz a partir de urânio enriquecido ou da fusão de isótopos de hidrogênio. O território cultivável da península coreana é justamente o Sul. No Norte, falta espaço pra cultivar coisas básicas (chegam a plantar arroz em áreas livres de um aeroporto, por exemplo), de forma que a divisão da nação é extremamente prejudicial - assim como o bloqueio econômico dos EUA. De qualquer forma, essa imagem da "nação passando fome" é um exagero baseado nos anos 1990, quando, de fato, se tem uma crise climática sem precedentes se arrastando por anos que se soma à perda de 90% do comércio exterior norte-coreano representado pelo fim da União Soviética. Não ilustra a realidade hoje; d) "a Coreia do Norte ameaça a paz mundial". Quem ameaça a paz mundial e força a Coreia a desenvolver armas nucleares para sobreviver são os EUA, que promoveram mais de cem invasões e golpes de Estado nos últimos cem anos. Um bom exemplo da flexibilidade norte-coreana se dá na política de reunificação da pátria: dos escritos de Kim Il Sung até o mais recente discurso de Kim Jong Un, os norte-coreanos defendem a reunificação pacífica da Coreia, aceitando até mesmo a estrutura de "um país, dois sistemas" (socialismo no Norte e capitalismo no Sul). O último presidente sul-coreano que topou levar essa ideia de forma mais séria foi deposto por um golpe branco do parlamento e seus fantoches estadunidenses. Quem, então, ameaça a paz mundial?


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- Diante do caráter introdutório e informal do texto que se seguiu, recomendo algumas leituras para quem quiser se iniciar no tema:

  • CUMINGS, Bruce. The Korean War: a history. New York: The Modern Library, 2010 (um dos principais "coreanistas" acadêmicos internacionais).
  • JABBOUR, Elias. Qual o futuro da Coreia do Norte? (2007). Disponível em: <vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=1113&id_coluna=17> (doutor em Geografia pela USP e professor da UERJ).
  • VISENTINI, Paulo F.; PEREIRA, Analúcia D.; MELCHIONNA, Helena H. A Revolução Coreana: o desconhecido socialismo Zuche. São Paulo: Unesp, 2015. (professores da UFRGS).
  • VISENTINI, Paulo F.; PEREIRA, Analúcia D. A discreta transição na Coreia do Norte e o risco de modernização sem reformas. Disponível em: <scielo.br/pdf/rbpi/v57n2/0034-7329-rbpi-57-02-00176.pdf>
  • Site E-Farsas. Se dedica a desmontar diversos mitos espalhados na internet e, apesar de não ter, intenções políticas declaradas, desmontou algumas mentiras veiculadas contra a Coreia do Norte, como a suposta falsificação dos resultados da Copa do Mundo por parte do governo coreano: <e-farsas.com/video-mostra-que-coreia-esta-na-final-da-copa-…> (essas notícias "exóticas" sobre a Coreia, referentes a supostas execuções, práticas "peculiares" de seus líderes, etc. são farsas, geralmente surgidas em órgãos de imprensa sul-coreanos pouco confiáveis e reproduzidos acriticamente pela imprensa mundial e brasileira).

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