segunda-feira, 20 de abril de 2020

Coreia do Norte: país livre de Coronavírus

A crise global do Coronavírus fez a atenção de muitas pessoas se voltar para as atuações de governos mundiais e para as medidas que cada nação tomou para conter um dos cenários mais imprevisíveis e graves das últimas décadas. Na mídia e nos comentários gerais pela internet, destacaram-se os bons exemplos, como o da China, que parece ter conseguido exitosamente conter quase que por completo a crise, e também os maus exemplos, como o dos governos do Reino Unido, Estados Unidos e o próprio Brasil.

Mas, diante de toda essa crise, têm surgido na mídia boatos e informações que estão levando muitos a acreditarem novamente em um discurso extremamente hostil contra um velho alvo da mídia: a República Popular Democrática da Coreia, conhecida como Coreia do Norte. Publicações em blogs, tabloides e sites de notícias insistem em dizer que o país socialista tem tomado medidas absurdas contra o novo Coronavírus, como execuções dos contaminados, e que estaria escondendo do mundo a real situação da Coreia.

No meio desse mar de desinformação, faz-se extremamente necessário o uso da racionalidade e a busca pelas fontes confiáveis para entender o que de fato está acontecendo na Coreia do Norte no meio da pandemia de Coronavírus.

O país ostenta um invejoso índice de nenhum caso de Coronavírus em seu território até o momento, causando muitas reações diversas pelo mundo, como a negação e contestação. Para entender como a Coreia do Norte não tem nenhum caso de infecção, vale saber as ações tomadas pelo governo popular coreano.

Bem no início da crise, que ainda tinha caráter local nas primeiras semanas de 2020, o governo chinês resolveu fechar a cidade de Wuhan e colocar a população em quarentena para conter o aumento do número de infectados. A Coreia Popular, localizada geograficamente ao lado da China, da Coreia do Sul e do Japão, que foram os primeiros países grandemente afetados, tratou rapidamente de tomar medidas de segurança sanitária.
A Agência Central de Notícias da Coreia, a KCNA, tem noticiado desde fins de janeiro as ações tomadas nesse sentido pela administração estatal, e é essa nossa principal fonte de informações de onde extraímos os dados para entender esse panorama.

Para manejar e coordenar os trabalhos no momento de crise, foi criada em caráter emergencial um organismo chamado Direção Central Emergencial Antiepidêmica, localizada na capital Pyongyang. Essa Direção Central desde então vem realizando videoconferências em todo o país e definindo tarefas claras de combate à epidemia a cada semana para evitar completamente a COVID-19 e tomou algumas decisões importantes.

O que se seguiu desde então foi uma mobilização nacional contra o Coronavírus após Pak Myong Su, diretor do Bureau Estatal de Controle de Higiene do Ministério da Saúde Pública da RPDC, fazer uma publicação na mídia conclamando a população a se prevenir contra o perigo do vírus e declarando um “estado de emergência”.
A primeira medida tomada foi o fechamento completo das fronteiras da RPDC com a China (a fronteira com o Sul da Coreia já está normalmente fechada). Esse fechamento foi acompanhado da suspensão de atividades em portos e aeroportos e também do isolamento de algumas províncias fronteiriças, onde a população foi colocada em quarentena e as atividades normais foram interrompidas para evitar aglomerações. Naturalmente, ocorreu também a descontinuidade do tráfego turístico no país.

Os estrangeiros que estavam na RPDC foram colocados em quarentena imediata e o pessoal diplomático também foi colocado sob o regime de isolamento social, já que constantemente viajam para o exterior. O mesmo foi feito com os coreanos que haviam voltado de países estrangeiros nos últimos dias. Essas milhares de pessoas foram acompanhadas de perto por médicos do sistema público, gratuito e universal de saúde da RPDC. Viagens de uma província para outra também foram reduzidas.

Os coreanos também criaram verdadeiros batalhões de descontaminação: homens e mulheres em trajes de proteção passaram borrifar soluções químicas desinfectantes no transporte público, em trens de carga que já estavam previstos de entrar antes do fechamento de fronteiras, em estabelecimentos comerciais, bancos, calçadas, corrimões e superfícies de contato coletivo, rondando todo o país. Esses produtos foram desenvolvidos pela indústria química de cosméticos que reverteu parte dos esforços de produção para ajudar nesse sentido.

Os trens que entraram na RPDC passaram por severas revistas e sessões de desinfecção.

Batalhões de desinfecção descontaminaram superfícies de contato no transporte público


Batalhões de desinfecção descontaminaram superfícies de contato nos estabelecimentos do comércio.
  


A mídia também teve um papel importante na campanha nacional de prevenção: a TV e o rádio reformularam seus programas para instruir a população a evitarem ao máximo aglomerações e a tomarem medidas da chamada "etiqueta viral" - como o uso de máscaras e de álcool em gel. Esses materiais, vale dizer, foram distribuídos gratuitamente pelo Estado. Eventos que criariam grande concentração de pessoas, como reuniões, apresentações, etc, foram cancelados.

Além disso, foram montadas equipes médicas de esforços sanitários por toda a Coreia Popular, preparando hospitais e postos de saúde para atender as pessoas em caso de epidemia. Essas equipes de médicos e enfermeiros começaram a percorrer cidades e visitar as casas das pessoas com qualquer tipo de sintoma suspeito.
Essas medidas rápidas acabaram fazendo com que a RPDC não registrasse nenhum caso de infecção pelo novo Coronavírus e a campanha está em seu nível primário de prevenção, uma vez que não há ainda nada a conter ou combater dentro do país.

A informação foi uma importante aliada para combater a entrada do vírus.


Em 20 de março, a mídia coreana publicou uma notícia informando que as pessoas nas províncias fronteiriças haviam sido liberadas da quarentena e estrangeiros que haviam ficado retidos sob observação médica também foram enviados de volta para seus países, demonstrando que enquanto o resto do mundo estava passando pelo pico da pandemia, a Coreia estava caminhando para a volta da normalidade.

É claro que a mídia, que trabalha como braço auxiliar do capital e do imperialismo, ignorou solenemente todos esses esforços científicos do povo coreano para impedir a entrada desse vírus que tem causado muita lástima por onde passa. A internet se tornou um terreno fértil para notícias falsas que visam atacar o socialismo coreano e a desacreditar o seu potencial, fomentando boatos como o mencionado no início dessa matéria: "se não há casos na Coreia do Norte, com certeza é porque estão matando as pessoas".

Pelas ruas movimentadas, profissionais da saúde mediam a temperatura da população

Esses boatos aproveitaram-se de um antigo estigma usado contra a Coreia do Norte: a da suposta falta de liberdade de imprensa. "Por isso tudo que dizem é mentira!". Acontece que para desmentir essa tese de que na verdade “há sim contaminados na Coreia do Norte e nós não sabemos porque ‘eles não querem que o mundo saiba’”, o presidente Donald Trump, em uma tentativa tardia de demonstrar internamente alguma ação contra o vírus e ao mesmo tempo tentar uma reaproximação com a RPDC, enviou uma carta pessoal do Máximo Dirigente Kim Jong Un elogiando-o por não ter casos de Coronavírus na Coreia Popular.

A informação de que a carta tinha sido enviada de Trump a Kim Jong Un foi confirmada por Kim Yo Jong, primeira vice-diretora de departamento do Comitê Central do Partido do Trabalho da Coreia, e também por um alto funcionário do governo estadunidense, citado pela agência de notícias DW Brasil. Kim Yo Jong, que também é irmã do Marechal Kim Jong Un, publicou na mídia coreana um artigo revelando o conteúdo da carta de Trump, na qual o presidente dos EUA elogiava os esforços da liderança coreana na prevenção à pandemia e também fazia a proposta de uma parceria entre os setores sanitários anti-epidemiológicos dos Estados Unidos e da RPDC para combater a doença.

Tendo em vista os inúmeros artigos publicados semanalmente pela mídia coreana sobre os esforços contra o Coronavírus, das fotos divulgadas pelas redes sociais do regime mostrando cenas da campanha de combate à epidemia e do próprio reconhecimento exposto pelo presidente Donald Trump, o que realmente parece ser verdade é que o sistema socialista da Coreia foi sim capaz de impedir por completo a entrada do vírus no país. Além disso, Mike Ryan, chefe do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), durante uma conferência em Genebra, confirmou que, em suas palavras, "No momento não há sinais, não há indicações de que estamos lidando com qualquer COVID-19 na Coreia do Norte", segundo uma matéria lançada em fevereiro pela CNBC, parte do conglomerado midiático estadunidense NBC.

As investidas midiáticas contra a Coreia não poupam o país nem mesmo em uma época de comoção internacional e de atenção máxima à necessidades reais que precisam da atenção de todos, demonstrando o caráter permanente de uma guerra híbrida contra o socialismo coreano, condenando-o até mesmo em suas vitórias.

por Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun – Brasil

 
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Fontes de consulta

Coreia do Norte não tem nenhum caso de Coronavírus. Disponível em: <https://cepsongunbr.wordpress.com/2020/03/17/coreia-do-norte-nao-tem-nenhum-caso-de-coronavirus/>

Mais esforços direcionados à prevenção do COVID-19 na Coreia do Norte. Disponível em: <https://cepsongunbr.wordpress.com/2020/03/22/mais-esforcos-direcionados-a-prevencao-do-covid-19-na-coreia-do-norte/>

Trump envia carta a Kim Jong Un elogiando o combate ao Coronavírus e propõe parceria. Disponível em: <https://cepsongunbr.wordpress.com/2020/03/24/trump-envia-carta-a-kim-jong-un-elogiando-o-combate-ao-coronavirus-e-propondo-parceria/>

Irmã de Kim Jong Un comenta carta de Trump sobre o Coronavírus. Disponível em: <https://cepsongunbr.wordpress.com/2020/03/24/irma-de-kim-jong-un-comenta-carta-de-trump-sobre-o-coronavirus/>

World Health Organization says there are ‘no indications’ of coronavirus cases in North Korea. Disponível em: <https://www.cnbc.com/2020/02/19/who-says-no-signs-of-coronavirus-cases-in-north-korea.html>

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Chongryon - A luta dos coreanos no Japão



Por Derek Ford - Liberation School (Party for Socialism and Liberation)





Um dos protestos semanais contra a repressão dos coreanos pelo governo japonês. Foto: Autor

 “A história da Chongryon é uma história de unidade, solidariedade e Luta” Presidente da filial da Chongryon em Yokosuka, 17 de janeiro de 2019
No começo de 1956, a construção daquilo que as autoridades japonesas e o público em geral pensavam ser uma fábrica de baterias, em uma região agora conhecida como Oeste de Tóquio, e que na época era uma área de cultivo, estava quase completa. No entanto, quando a construção da “fábrica” terminou, em 10 de abril daquele ano um cartaz anunciava que ali era a nova casa da Universidade da Coreia, que anteriormente era uma série de barracos anexadas a Primeira Escola Secundária Coreana de Tóquio.
Este episódio é parte de uma muito mais longa e amplamente desconhecida luta anticolonial dos coreanos no Japão, uma luta com implicações e lições para todo o mundo. É uma luta que, assim como a luta dos coreanos de uma maneira mais ampla, têm sido sistematicamente isolada. Como tal, é uma luta que necessita de mais solidariedade internacional, particularmente de nossa parte nos Estados Unidos. É uma luta que pode dar esperança e inspiração para todas as pessoas que lutam contra o colonialismo e o imperialismo.
Além disso, é uma luta na qual a educação – uma das principais tarefas daqueles interessados na transformação revolucionária – é o motor.
Hoje existem cerca de 800.000 coreanos vivendo no Japão, como estrangeiros, ou “residentes permanentes especiais” com nacionalidade norte ou sul-coreana. O Japão é a sua terra nata, mas por causa da divisão da Coreia imposta pelos Estados Unidos, eles ainda não possuem sua pátria de volta.
No Japão eles sofrem discriminações políticas, econômicas e legais, e especialmente desde 2002, estão sofrendo ataques físicos nas mãos das autoridades japonesas e dos grupos de direita. A Chongryon, ou Associação Geral de Coreanos Residentes no Japão, é a organização – ou melhor, movimento – que luta pelos direitos dos coreanos no Japão, apoiando o seu modo de vida, mantendo sua cultura e língua diante do colonialismo contínuo, e trabalhando para a reunificação da pátria.
A origem dos coreanos no Japão: acumulação primitiva, trapaças e escravidão
Existem três principais formas de como os coreanos chegaram ao Japão na era moderna, o que em conjunto explicam como uma distinta – não totalmente homogênea – comunidade coreana começou a residir na pátria colonial. Elas também revelam as formas como o colonialismo japonês e o imperialismo norte-americano criaram a diáspora coreana de uma maneira mais ampla.
Acumulação primitiva
A conquista da Coreia pelo Japão foi um longo processo que encontrou uma feroz resistência. Começou em 1876, quando o Japão forçou que a Coreia abrisse os seus portos e começou a se expandir para as Ilha Ganghwa, no Mar Oeste da península. Através de uma série de procedimentos políticos e legais – cada um deles apoiados pela força ou ameaça de força – o Japão anexou a Coreia em 1905, e em 1910, formalmente submeteu a península ao seu domínio colonial.
A colonização da Coreia pelos japoneses, como todas as colonizações, foi brutal. O Japão violentamente reprimiu a sociedade, política e cultura coreanas, colocando na ilegalidade todo tipo de organização política, bem como a língua coreana. Os japoneses ainda forçaram os coreanos a adotarem nomes japoneses.
Com um crescente poder industrial, o Japão necessitava de colônias para conseguir matérias primas e mão de obra barata. Com a Europa envolvida na Primeira Guerra Mundial, a manufatura japonesa substituiu a manufatura europeia, o que levou a um boom nas exportações em 1910. Com a expansão da economia, os trabalhadores lutavam por uma maior participação nos lucros. Entre 1914 e 1919, a frequência e intensidade das greves cresceram e se intensificaram rapidamente. O capital japonês precisava quebrar o poder do trabalho organizado por meio da importação de mão de obra barata.
Ao mesmo tempo, o Japão estava em um processo de divisão das terras comuns na Coreia, através de um projeto de levantamento de terras a nível nacional. Eles acabaram redistribuindo a terra de camponeses para latifundiários via preços inflacionados e impostos, reavaliando valores, redesenhando limites e instituindo um sistema de registro. Este é um exemplo do que os marxistas chamam de acumulação “primitiva” ou “primária”, processo pela qual os capitalistas adquirem capital e produzem o proletariado, não através da criatividade e frugalidade, mas por meio do roubo e da violência. O levantamento de terras arruinou os pequenos camponeses, transferindo a terra para os japoneses e para um número muito reduzido de latifundiários coreanos colaboradores.
Na medida em que eram expulsos da terra, as companhias japonesas trabalhavam conjuntamente om a polícia colonial para recrutar trabalhadores para as fábricas japonesas. Prometiam aos trabalhadores o pagamento de altos salários e liberdade de viagem, mas ao chegarem se deparavam com o oposto. Muitos demandaram repatriação, mas as companhias raramente eram obrigadas a fazer isso.
Com o final da Primeira Guerra Mundial, a economia japonesa entrou em falência, começando com o crash da bolsa de valores, em março de 1920, a pior crise econômica até o momento. Embora a força de trabalho coreana fosse mais barata e mais contingente do que a japonês, eles foram os primeiros a serem despedidos. Pelas próximas décadas, aqueles que tinham sorte o suficiente para encontrar trabalho eram empregados como trabalhadores diários em projetos de urbanização de larga escala, trabalhando em empregos mais perigosos pelos salários mais baixos. Foram os coreanos que construíram muitas das barragens, estradas e projetos habitacionais que existem no Japão até os dias de hoje.
Escravidão sexual
A extensiva rede de escravidão sexual japonesa representa outro aspecto do movimento dos coreanos no Japão. Os militaristas japoneses enganaram e sequestraram centenas de milhares de mulheres para que servissem como escrava sexual dos soldados japoneses.
A prática não poderia ser mais brutal. As mulheres eram sistematicamente estupradas e espancadas dezenas de vezes por dia. Quando elas ficavam doentes, eram assassinadas ou deixadas para morrer sozinhas.
Enquanto as chamadas “mulheres de conforto” eram sequestradas das colônias japonesas, de Taiwan até as Filipinas, a maioria delas vinham da Coreia e Manchúria (uma grande porcentagem do povo na Manchúria durante essa época era de coreanos).
A prática continuou no sul da Coreia depois que o império japonês entrou em colapso, em 1945 e os Estados Unidos entrou no país. Em outras palavras, quando os Estados Unidos tomaram o controle da Coreia do Japão, eles também tomaram o controle dessas estações de estupro. Durante a guerra da Coreia, essas estações serviam as tropas da República da Coreia, bem como a das Nações Unidas.
A luta por justiça para essas mulheres continua e é parte importante do amplo movimento de paz e justiça dos coreanos. Da mesma forma, a repressão contra essa luta continua. O governo japonês recentemente promoveu uma campanha para que cidades ao redor do mundo removam as estátuas em memória as Mulheres de Conforto, de São Francisco à Manila. Eles até mesmo tentaram influenciar que editoras de livros escolares norte-americanos omitam qualquer menção a escravidão sexual japonesa. Embora todas, com exceção de algumas dúzias, tenham morrido, o seu espírito ainda impulsiona a luta dos coreanos adiante. 
A agitação política reverberou ao longo das décadas, na medida que a depressão econômica se juntava com as demandas anticoloniais. Em primeiro de março de 1919, começa um massivo movimento de protesto pela independência dos coreanos.
Dois anotes antes, a Revolução Bolchevique deu uma nova forma a luta dos coreanos por libertação. Comunistas e anarquistas começaram a se reunir nas fronteiras da Rússia, China e Coreia. No começo da década de 20, uma série de sindicatos radicais coreanos foram estabelecidos no Japão. Em 1925, 12 desses sindicatos se fundiram no Roso (Federação Coreana do Trabalho no Japão), que no ano seguinte teria mais de 9.000 membros, e três anos depois mais de 30.000. Em resposta, os coreanos foram severamente reprimidos no Japão, com os seus movimentos policiados e altamente regulados.
Trabalho forçado
Apesar da ameaça que a população coreana organizada representava o Japão entre as duas guerras, a Guerra do Pacífico (Segunda Guerra Mundial) trouxe mais uma vez a necessidade de mão de obra adicional. Com as ambições do Japão imperial mobilizando largos segmentos da população japonesa adulta, o Japão trouxe mais de 1 milhão de trabalhadores coreanos para suprir a escassez de mão de obra.
Eles utilizaram a Lei de Mobilização Nacional – aprovada em 1938 para colocar o império em marcha para a Guerra – para recrutar a força trabalhadores coreanos e trazê-los para o Japão, onde serviriam como trabalhadores escravos. Em alguns casos eles eram sequestrados da Coreia, enquanto outros eram enganados que ao chegarem no Japão teriam um futuro brilhante. Uma vez lá, eles não tinham controle sobre suas condições de trabalho e vida.

Um dos tuneis cavados por trabalhadores escravos coreanos em 1944-45. Foto: Autor


Trabalhando em fábricas de munições, construção e mineração, eles também construíram tuneis subterrâneos secretos que serviam como base para armazenar aviões e bunkers para a força aérea. Coreanos, frequentemente crianças, construíram centenas de milhares de redes de tuneis com suas mãos e picaretas. Logo após a derrota do Japão em 1945, o governo ordenou que todos os documentos relacionados a esse projeto fossem queimados, então ninguém poderia saber quantos morreram na construção. Durante as últimas décadas, ativistas japoneses e coreanos vêm estudando essa questão. Acadêmicos descobriram que os tuneis eram usados para armazenar munições durante a guerra dos Estados Unidos contra a Coreia.
Muitos desses trabalhadores escravos morreram durante os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Eles nunca foram reconhecidos pela história japonesa.
Um tempolo budista da Chongryon, junto com grupos civis no Japão e de ambas Coreias, encontraram alguns restos mortais e atualmente lutam para trazê-los para o Parque da Paz da Zona Desmilitarizada da Coreia. 
O colapso do império japonês na Coreia: derrota e libertação parcial
A rendição incondicional do Japão, em 15 de agosto de 1945, não se iguala diretamente a libertação da Coreia
Desde 1931, guerrilhas nacionalistas e comunistas lutaram nas montanhas da Manchúria contra os japoneses. Kim Il Sung emergiu como um líder particularmente eficaz durante este período, tanto que os japoneses tinham destacamentos especiais encarregados de assassiná-lo. Enquanto as guerrilhas se espalhavam por toda a Manchúria e na parte norte da Coreia, os Estados Unidos se mobilizaram para que elas não tomassem toda a península.
Na noite anterior a rendição japonesa, dois oficiais subordinados dos Estados Unidos, Dean Rusk e Charles Bonesteel, pegaram um mapa geográfico da Coreia. Nenhum dos dois havia estado ou falavam uma palavra em coreano. Eles dividiram o país ao longo do paralelo 38, que estava aproximadamente no meio, mas permitia que os Estados Unidos mantivessem o controle da capital, Seul. Os Estados Unidos e a União Soviética tinham concordado em temporariamente o país ao meio, com o exército de cada um ocupando um respectivo território. A divisão duraria cinco anos, momento em que ambas as tropas, soviéticas e norte-americanas, partiriam.
Com a derrota japonesa, comitês populares surgiram espontaneamente por toda a península coreana. No Norte, estes formariam a base de um governo provisório, e a União Soviética apoiaria todas as decisões feitas pelo poder local. No Sul, ao contrário, os Estados Unidos estabeleceram uma ditadura militar, apoiando Syngman Rhee, que havia estudado em Princeton e Harvard e socializado com o establishment político norte-americano por décadas. A ditadura suprimiu violentamente os comitês populares e massacrou a esquerda.





As cinzas dos trabalhadores escravos coreanos que aguardam retornar para a Coreia. Foto: autor

Era evidente para qualquer observador que sem a ocupação militar norte-americana, os nacionalistas e comunistas venceriam na Coreia. Como tal, os Estados Unidos moveram para tornar a ocupação permanente, realizando eleições no Sul em 1948. A maior parte da população boicotou a eleição e a União Soviética e o governo provisório no Norte denunciaram o movimento.
Em resposta a esta construção artificial do Estado Sul-coreano, a República da Coreia, a República Popular Democrática da Coreia foi fundada no Norte em 9 de setembro de 1948.
Isso serviu para aumentar as incertezas e aguçar a luta. A Coreia havia sido um país unido por séculos e ninguém aceitava a divisão em dois estados como legítimo ou permanente. Havia um consenso geral de que se os Estados Unidos tivessem seguido adiante com o seu acordo inicial com a União Soviética, permitindo a realização de eleições em todo o país, Kim Il Sung haveria vencido sem esforços. Os Estados Unidos certamente sabiam disto, razão pela qual criaram o Estado sul-coreano. 
Coreanos no Japão em uma década de incerteza
Com a derrota do Japão em 15 de agosto, 1945, havia entre 2 e 2,5 milhões de coreanos no Japão. Uma pesquisa do governo descobriu que 80% dos coreanos no Japão desejavam retornar para casa, mas eles não podiam por três razões. A primeira, o Quartel-General – o supervisor dos Estados Unidos comandado por Dougllas MacArthur – não os deixaria levar nenhuma propriedade com eles. Segundo, aqueles que fossem não seriam permitidos retornar e visitar os familiares que ficaram. Finalmente, porque os coreanos sofreram por décadas baixo a superexploração, a maioria não tinha nenhuma condição para se repatriar.
Os coreanos no Japão estavam em um estado de limbo. Eles, também, recusaram a aceitar que esta situação como legítima ou permanente. Mais ainda, por volta de 90% vinham da parte Sul da península. Alguns voltaram para casa para encontrar ocupação norte-americana, violência, caos, doenças e extrema insegurança econômica. De fato, comunistas da parte mais meridional do país – que estavam mais geograficamente próximos do Japão do que da RPDC – fugiram para o Japão para escapar da repressão militar da ditadura de Rhee na Coreia do Sul.
Por exemplo, 40.000 coreanos foram para o Japão depois que as autoridades sul-coreanas, apoiadas pela administração militar norte-americana, esmagaram o levante nacionalista e comunista na Ilha Jeju, em 1948-1949. A certa altura, cerca de 4/5 da população da ilha vivia em Osaka.
Em 15 de outubro de 1945, nacionalistas, comunistas e coreanos progressistas em geral formaram a Joryon, ou Federação dos Coreanos no Japão. A Joryon se inclinava cada vez mais para o governo provincial no Norte, e particularmente para a liderança de Kim Il-Sung, que possuía um alto prestígio não só entre coreanos, mas também entre radicais e intelectuais japoneses e todos os povos progressistas do mundo. A Joryon tinha assim uma aliança com o Partido Comunista Japonês (e de fato havia uma longa e complexa história de cooperação entre coreanos e revolucionários japoneses).
As escolas foram estabelecidas reivindicando a cultura coreana que o Japão havia se esforçado tanto para suprimir. Isto também foi visto como uma preparação para um eventual retorno para uma Coreia unida. Os japoneses iriam depois (e temporariamente) apoiar os esforços dos coreanos por repatriação para a RPDC, com o desejo de se livrarem da população que eles viam como “rebelde” e “etnicamente inferior.” Antes da repatriação terminar em 1984, mais de 90.000 coreanos haviam retornado para a RPDC. Muitos enviaram membros da família com a esperança de que em breve a Coreia seria reunificada. Como resultado, muitos coreanos no Japão atual possuem parentes na RPDC.
As escolas da Joryon representaram uma ameaça a ordem pós-guerra e muitas delas foram fechadas. Então, coincidindo com a formação da RPDC e da ROC, em 1948-49, o Quartel General invadiu e desmantelou violentamente a Joryon e suas escolas, matando vários estudantes neste processo.
A Mindan (União de Coreanos Residentes no Japão), uma organização pró-EUA e pró-japonesa rival, foi formada em 1946. Mindan era – e ainda é – leal à República da Coreia, e os membros da Mindan são cidadãos sul-coreanos. Eles não sofreram nenhuma repressão estatal, embora seus membros ainda sofram racismo e discriminação anti-coreana.
Chongryon: Lutando contra a discriminação, pela paz e pela reunificação 
A Guerra dos Estados Unidos contra a Coreia, de junho de 1950 até julho de 1953, enraizou profundamente a divisão da península. Os coreanos no Japão tinham que, em certo sentido, escolher entre a RPDC e a ROC. A esmagadora maioria da população (cerca de 90%) apoiou a RPDC, vendo-a – em vez dos fantoches dos Estados Unidos da ROC – como a representante da nação coreana. Afinal, um governo popular dominava o Norte, apoiado pelo prestígio internacional de Kim Il Sung e outros grandes guerrilheiros.
Sob o domínio colonial japonês, os coreanos eram cidadãos japoneses. Mas em 1952 sua nacionalidade foi revogada. Perderam o direito ao voto, não podiam viajar e estavam excluídos de uma série de oportunidades de emprego. Eles estavam isolados. Além disso, muitos agora eram da segunda geração, o que quer dizer que eles tinham crescido e vivido a vida toda no Japão.
Não havia escolas japonesas onde qualquer coisa coreana fosse ensinada, ou mesmo onde os estudantes pudessem falar coreano. O racismo anti-coreano era galopante em todas as escolas e sociedade japonesas.
Uma nova organização para progressistas, comunistas e nacionalistas estava sendo preparada desde a dissolução violenta da Joryon, mas somente no início de 1955 que uma nova organização surgiu: a Chongryon. Ela foi fundada oficialmente em 25 de maio daquele ano. A organização foi fundada especificamente para organizar ao redor da RPDC os coreanos no Japão, o que significava trabalhar para a reunificação pacífica e criação de suas próprias instituições culturais e institucionais no Japão.
A Chongryon olha para dentro de sua própria comunidade e também para sua terra natal. Ela tomou a posição de não interferência na política japonesa, aderindo as leis japonesas (assim cortando laços com o Partido Comunista Japonês).

 Uma sala de aula em uma escola no Primeiro Colégio Coreano de Tóquio em Janeiro de 2019. Foto: autor

Com um financiamento generoso vindo da RPDC – ainda mais significante dado ao fato de que a RPDC estava naquela época reconstruindo sua infraestrutura depois da devastação da guerra – a Chongryon iniciou a reconstrução de centenas de escolas, bem como de associações, equipes esportivas, instituições culturais e profissionais. Eles chegaram até estabelecer o seu próprio banco e uma companhia de seguros.
Foi neste cenário que os coreanos no Japão construíram a “fábrica de baterias”, ou melhor, a Universidade da Coreia – a única instituição de educação superior da Chongryon.
Educação Coreana no Japão atual e a luta contra a discriminação
As escolas da Chongryon são relativamente autônomas do controle japonês porque elas tecnicamente não são “escolas”. Em vez disso, sob a Lei de Educação Escolar do Japão, elas são consideras como “escolas diversas”. Isto significa que elas têm o seu próprio currículo e são auto-financiadas, principalmente através de doações e matrículas.
As escolas são amplamente populares dentro da comunidade da Chongryon, mas mesmo os coreanos no Japão que não são afiliados na Chongryon enviam os seus filhos para as escolas, para que eles aprendam sua própria língua, cultura e heranças, estudando em escolas livres do racismo anti-coreano. Isto é particularmente verdade para os casos do ensino fundamental e médio.
Atualmente a Chongryon conta com 10.000 estudantes nas escolas primárias e secundárias. Sua composição é variada: por volta de 45% possuem passaporte da RPDC, 55% passaporte da ROC, e o restante possui passaporte japonês. No entanto, isto não significa que 45% apoia a RPDC, 55% apoia a ROC, e 10% apoia o Japão. Ser um cidadão estrangeiro da RPDC acarreta uma série de fardos adicionais. Eles não podem viajar livremente for a do país, e não podem visitar a Coreia do Sul. Muitos obtêm o passaporte da ROC, mas ainda apoiam a RPDC. Isto permite que eles possam viajar tanto para o Norte, quanto para a Coreia do Sul, bem como para outros países, como os Estados Unidos e a Inglaterra. Ter um passaporte da ROC ou um passaporte japonês não é uma barreira a adesão formal ou informal à Chongryon.
A autonômia da Chongryon vem com um custo significante. Os empregadores discriminam aqueles que possuem diplomas das escolas da Chongryon. Além disso, as universidades japonesas não aceitam diplomas da Chongryon, portanto os estudantes devem pagar e passar em um exame de admissão adicional.
Em 2010, o governo japonês introduziu um programa de dispensa de matrícula para estrangeiros nacionais frequentarem as escolas no Japão. Estudantes em escolas chinesas e americanas, por exemplo, possuem sua educação completamente ou altamente subsidiadas pelo governo. As únicas escolas excluídas são as escolas da Chongryon. Isto durou de jure até 2013, quando o governo Abe tornou oficial o programa através da revisão de uma portaria do ministério. A razão oficial foi a de que o governo não pode verificar o currículo da Chongryon. Contudo, o governo não pediu para verificar o currículo de nenhuma outra escola estrangeira.  
Governos locais, no entanto, algumas vezes fornecem subsídios para as escolas da Chongryon. A maioria, no entanto, segue as orientações do governo nacional e cortaram os subsídios.
As famílias também não são elegíveis para existir isenção de impostos pelas doações feitas às escolas da Chongyron, diferente do que ocorre para doações para todas as outras escolas estrangeiras.
Tal estrangulamento financeiro aperta o nó contra toda a Chongryon e, por extensão, contra toda a comunidade coreana no Japão. Com a comunidade da Chongryon excluída de tantos setores da economia japonesa, as famílias não conseguem fazer a diferença através das matriculas, o que significa os orçamentos operacionais e as matrículas diminuam.
Na Primeira Escola Coreana Secundária de Tóquio, onde a quarta e quinta geração de estudantes coreanos são ensinados por professores da terceira geração, o orçamento operacional é de 2 milhões de ienes por ano. Noventa por cento vem das mensalidades e não há financiamento do governo. As escolas secundárias japonesas da região recebem cinquenta por cento de seu financiamento do governo metropolitano de Tóquio. O governo nacional dá as famílias um voucher de 112 milhões de ienes por ano, o que cobre as mensalidades. As escolas coreanas são as únicas inelegíveis para o programa de voucher.
Alimentado pelo governo direitista de Abe e seus ataques institucionais contra a comunidade da Chongryon, reacionários racistas e ultranacionalistas elegeram como alvo aqueles que são os mais vulneráveis: jovens estudantes. Em apenas um exemplo, em 2009, 11 racistas foram para o portão de uma escola de ensino primário da Chongryon e gritaram coisas como “baratas coreanas!” contra os estudantes. Depois de se reunirem por uma hora, eles continuaram destruindo o campo de futebol e o auditório da escola. O grupo fez três aparições na escola. Em cada uma das vezes a polícia apareceu, mas só ficou parada em silêncio.
Uma pesquisa na escola primária e secundária de Tóqui descobriu que por volta de 20% dos estudantes foram assediados ou ameaçados por direitistas entre 2003-2007.
Os direitistas atacaram os estudantes com facas. As estudantes da Universidade da Coreia, por exemplo, não vestem mais os seus vestidos tradicionais fora do campus, porque os direitistas rasgam os seus vestidos com facas no metrô.
Ao longo de 2013, a polícia japonesa conduziu varias batidas policiais na Chongryon. Em fevereiro de 2013, as autoridades japonesas fizeram uma batida em Chongryon, com mais de 250 policiais e mais de 25 veículos blindados. Recentemente, um grupo de estudantes da Universidade da Coreia, retornando de uma viagem escolar na RPDC, tiveram todos os souvenirs confiscados no Aeroporto de Haneda, Tóquio, quando retornavam. Anteriormente o governo baniu a visita de oficiais da Chongryon à RPDC.
O governo Abe regularmente usa os estudantes coreanos como forma de tentar ganhar vantagem em negociações com a RPDC. É uma tentativa de dividir os coreanos no Japão da RPDC, que calorosamente regularmente acolhem os estudantes da Universidade da Coreia e os membros da Chongryon, e mantém estreitos laços com a comunidade coreana ali.
A Associação de Direitos Humanos dos Coreanos residentes no Japão está envolvido em batalhas legais contra esse regime de apartheid. Eles regularmente apelam à Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas.
The Human Rights Association for Korean Residents in Japan is involved in legal battles against this apartheid system. They  regularly appeal to the United Nations Human Rights Commission.
O futuro da Chongryon
Depois de eu visitar pela primeira vez uma escola de ensino médio, em 2006, eu conheci o diretor e o vice-diretor da escola. Ele nos perguntou nossas impressões. Eu fazia parte de uma delegação de coreanos estrangeiros que estavam ali para comemorar o 60° aniversário de fundação da Universidade da Coreia. Eu era o único cidadão norte-americano ali. Quando chegou a minha vez, eu pensei em comparar minhas observações com o estado das escolas nos Estados Unidos.
Eu comecei dizendo aos diretores que, nos Estados Unidos, muitos comparam as escolas norte-americanas com prisões. Neste momento, meu amigo e colega que servia como tradutor parou, olhando para mim com uma expressão confusa. Um outro amigo interveio para traduzir. Depois, meu colega, que cresceu em uma escola da Chongryon e ensina na Universidade da Coreia, pediu desculpas e explicou o que tinha acontecido. “Eu não podia compreender o que você disse, pois era uma noção muito estranha para mim, embora eu conhecesse todas as palavras”.  

Performance de música tradicional coreana em uma escola da Chongryon Foto: Autor.

As escolas da Chongryon possuem um ambiente alegre, onde os estudantes aprendem a serem orgulhosos de suas identidades e nação. Além de aprenderem a língua japonesa, história, literatura, eles estudam a cultura, história e política coreana. Eles comem comida coreana no refeitório. Eles estudam cuidadosamente e atentamente a política coreana atual. Eles têm bandas de rock que escrevem, produzem, e apresentam os seus próprios sons sobre a reunificação da pátria.
As escolas da Chongryon aceitam todos os estudantes coreanos. Não há exames de admissão e ninguém é recusado. A União de Professores da Chongryon se encontram regularmente para estudar o que é conhecido no ocidente como pedagogia diferenciada (como ensinar a cada aluno individualmente).
Não é de surpreender que o meu colega tenha ficado tão confuso ao ponto de não poder traduzir as minhas observações. As escolas da Chongryon são o exato oposto das prisões. Elas servem como exemplo de beleza e profundidade do anseio dos coreanos pela reunificação. Elas fornecem para os educadores e ativistas da educação um modelo do que pode ser uma genuína educação libertadora e descolonial. Imaginem se todos os povos oprimidos nos Estados Unidos tivessem escolas onde eles tivessem o total controle sobre o currículo e a pedagogia?
O movimento da Chongryon merece a solidariedade de todos os cantos do mundo, mas particularmente de nós dos Estados Unidos. É o governo dos Estados Unidos que é o principal obstáculo para a conquista da paz e da reunificação da península coreana. A constante demonização e propaganda contra a RPDC é um obstáculo fundamental para o movimento de paz pró-coreano nos Estados Unidos. Contar a história do movimento da Chongryon é uma forma que nós podemos trabalhar para combater a propaganda e nos colocarmos em solidariedade com os coreanos no Japão e em toda a parte.
O autor gostaria de agradecer ao seu amigo na Chongryon e na Universidade da Coreia por sua ajuda com a pesquisa para editar este artigo


sábado, 14 de dezembro de 2019

A histeria reacionária contra a Coreia Popular e as vitórias do movimento de solidariedade




A histeria reacionária contra a Coreia Popular e as vitórias do movimento de solidariedade

No dia 29 de novembro de 2019, o Centro de Estudos da Política Songun promoveu um importante encontro entre o vereador da cidade do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e o Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular Democrática da Coreia no Brasil, camarada Kim Chol Hak.

Como relatado pelos companheiros do Centro de Estudos da Política Songun, durante as conversações “foram discutidas questões de intercâmbio cultural e econômico entre a Coreia do Norte e o Rio de Janeiro”. Nesta mesma ocasião o vereador Leonel Brizola entregou uma Moção de Louvor e Reconhecimento ao camarada Kim Jong Un, reconhecendo o seu trabalho pela paz mundial e pela reunificação pacífica da Coreia.

O Centro de Estudos da Ideia Juche do Brasil considera como extremamente positiva a reunião promovida pelos camaradas do Centro de Estudos da Política Songun e saudamos enfaticamente a disposição e coragem do vereador Leonel Brizola em realizar tal conversação, bem como sua iniciativa em entregar ao camarada Kim Jong Un uma Moção de Louvor e Reconhecimento.

Como não poderia deixar de ser, os grupos monopolistas de informação, com algumas semanas de atraso, começaram a dar ampla repercussão ao evento ocorrido, fato este que começou a render uma enxurrada de críticas a atuação do vereador Leonel Brizola por parte das hordas reacionárias de fanáticos bolsonaristas e liberais travestidos de esquerdistas.

De maneira medíocre e torpe, alguns políticos burgueses ligados ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) começaram a se manifestar nas redes sociais “condenando” o vereador Leonel Brizola por sua participação no encontro e a sua decisão em entregar a Moção ao camarada Kim Jong Un. Figuras como Marcelo Freixo, Luciana Genro e Sâmia Bomfim, atuando como verdadeiros provocadores a serviço da reação, não perderam tempo em denunciar e promover o achincalhamento público do vereador Leonel Brizola, na busca de ganhar alguns pontos entre setores pequeno-burgueses influenciados pela máquina propagandística do imperialismo, setores que constituem a base de apoio político de tais figuras.

Ainda que o ocorrido possa atrair um certo desconforto momentâneo, o fato é que a repercussão do encontro na verdade demonstra o quanto se desenvolveu o movimento de solidariedade a Coreia Popular em nosso país nos últimos anos. Por mais que esperneiem e gritem as lideranças medíocres da esquerda pequeno-burguesa brasileira, as forças consequentemente anti-imperialistas e socialistas continuarão desenvolvendo o seu já tradicional trabalho de solidariedade a Coreia Popular e fortalecendo os laços de amizade entre o povo brasileiro e o povo coreano.

CENTRO DE ESTUDOS DA IDEIA JUCHE DO BRASIL

14 de dezembro de 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Coreia Popular: Revolução e socialismo apoiados nas próprias forças


Por José Reinaldo Carvalho (*)
A convite da Associação Coreana de Cientistas Sociais, uma delegação de ativistas pela paz e a solidariedade entre os povos e acadêmicos de Relações Internacionais, agrupados pelo Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Lula pela Paz), visitou de 3 a 17 de julho a República Popular Democrática da Coreia.
Éramos 11 brasileiros sequiosos de conhecer a experiência de construção do socialismo no enigmático país asiático e os atuais desdobramentos do conflito político e militar na Península Coreana, onde é saliente a questão nuclear.
Uma missão de estudos e amizade, em que mantivemos frutíferas conversações com os dirigentes da Associação, ouvimos palestras, entrevistamos cientistas sociais e percorremos instalações econômicas, sociais e culturais.
Nosso propósito foi o de conhecer algo mais sobre um país bloqueado e que não raras vezes é vítima da contrainformação e de campanhas caluniosas orquestradas pelos meios de comunicação sintonizados com os círculos imperialistas mundiais.
Conhecemos um povo altaneiro, dirigentes partidários, estatais e de organizações sociais firmes e convictos, gente temperada na luta e disposta a novos combates para construir o socialismo em meio a incontáveis adversidades.
Um povo culto, generoso, hospitaleiro, gentil, amistoso, disciplinado e belo.
Durante a viagem pelo interior do país, de geografia acidentada por montanhas escarpadas, fomos deslumbrados por uma encantadora paisagem primaveril, com verdes campos semeados de milho e arroz.
Duas semanas não são suficientes para conhecer a fundo o “país das manhãs serenas” – é este o significado do seu nome próprio derivado do idioma antigo. Mas nos deram uma visão panorâmica de uma nação e um povo empenhados na defesa de sua soberania e na construção de uma vida digna, baseada nos princípios do socialismo científico.
Visitar e percorrer a capital Pyongyang provoca um impacto especial, a sensação de estar em contato com um novo tipo de civilização urbana.  A metrópole, hoje com cerca de três milhões de habitantes, foi totalmente reconstruída­­, com inaudito heroísmo, depois de ter ficado em ruínas pelos bombardeios da aviação norte-americana durante a Guerra da Coreia. A reconstrução da capital foi um capítulo à parte da história do socialismo coreano.
Pyongyang é uma cidade moderna, com amplas e extensas avenidas, organizadas como salas de estar e alamedas de um palácio real, com prédios coloridos e ruas alvas de tão limpas.
Uma cidade embelezada com magníficas obras, como o Arco do Triunfo, o monumento ao Partido do Trabalho, a Torre da Ideia Juche, o Arco da Reunificação da Pátria, o Palácio Kumsunsan, onde se encontram os mausoléus de Kim Il Sung e Kim Jong Il, o Museu da Revolução, o Museu da Guerra Patriótica, o Palácio Cultural e Artístico das Crianças, o majestoso Estádio Primeiro de Maio, o Palácio dos Estudos do Povo, monumental biblioteca totalmente informatizada, obras que expressam a peculiar cosmovisão coreana – grandiosa, com perspectiva de futuro e desafiadora em face das próprias dificuldades.
Uma República popular e socialista
A República Popular Democrática da Coreia (RPDC), fundada em 1945, é resultado de uma guerra de libertação nacional e uma revolução nacional, democrática, antifeudal e popular conduzidas pelos comunistas sob a liderança de Kim Il Sung, que foi uma das figuras mais destacadas do movimento comunista do século 20. O líder coreano fez parte da plêiade de dirigentes que marcaram a época das lutas e triunfos das revoluções populares, da construção do socialismo e dos esforços pela paz, tais como Stálin, Mao Tsetung, George Dimitrov, Enver Hoxha, Josip Broz Tito, Fidel Castro, entre outros.
Fundada a República popular, a Coreia lançou-se à construção do socialismo nas condições especiais de um país asiático atrasado e desde o início atropelado pela divisão do país e a agressão estadunidense.
A grande divisa dos coreanos, a marca distintiva da República popular e socialista coreana, é a independência das massas, a autonomia nacional e o apoio nas próprias forças.
O líder histórico da RPDC, Kim Il Sung, formou-se como dirigente comunista na escola do marxismo-leninismo e desde o início da luta, nos anos 1920, compreendeu a máxima de que a revolução e o socialismo não obedecem a ditames externos, mas são obra das massas populares autóctones. Criou então um pensamento próprio, a Ideia Juche, palavra-chave do modo de pensar, ser e agir dos coreanos, que não significa outra coisa senão independência e autossuficiência.
A RPDC percorreu um caminho de construção do socialismo com as próprias forças, nunca fez parte do Comecon, não obedeceu a nenhum centro e, muito embora ajudada pela antiga União Soviética e a China Popular, fincou pé na resolução de apoiar-se nas energias criadoras do próprio povo, construir a nova sociedade segundo as peculiaridades nacionais, cultivando a independência e o impulso revolucionário das massas populares.
Agir ao estilo coreano, esta é também uma divisa do método de ação do Partido do Trabalho, do governo, das organizações de massas e da intelectualidade da RPDC.
Nessas circunstâncias, o povo coreano, sob a direção do Partido do Trabalho, conquistou grandes êxitos na construção de uma sociedade socialista. Organizou a agricultura com base na propriedade coletiva – estatal e cooperativista, nacionalizou e estatizou os principais meios de produção, soergueu uma moderna e diversificada indústria pesada e ligeira, construiu um invejável sistema de defesa, incluindo o poderio nuclear, e foi capaz de assegurar os direitos sociais fundamentais.
A construção do socialismo na RPDC enfrenta as vicissitudes próprias da época atual. Um violento bloqueio econômico e financeiro, que sobreveio após a derrocada do socialismo na URSS e demais países do Leste Europeu, hoje agravado por novas sanções unilaterais dos EUA e do próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas, criou dificuldades adicionais ao desenvolvimento do país.
Os anos 1990 foram especialmente difíceis, um período caracterizado como “a marcha árdua”, de escassez inclusive alimentar.
O apelo da paz e a questão nuclear
A delegação do Cebrapaz visitou a histórica localidade de Panmunjong, no Paralelo 38, onde foram assinados os acordos de armistício que suspenderam a Guerra da Coreia (1950-1953) e cristalizaram a divisão do país entre a Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia, RPDC) e a do Sul (República da Coreia, ROK).
Divisão, aliás, não desejada pelos norte-coreanos, cujo antigo líder Kim Il Sung, falecido em 1994, propôs em diferentes ocasiões a reunificação da pátria, sendo esta ainda hoje uma bandeira de luta estratégica do povo coreano.
Foi em Panmunong que no ano passado os líderes máximos dos dois países que compartilham o território da Península Coreana – Kim Jong Un (RPDC) e Moon Jae In (ROK) – cruzaram a fronteira e abriram um novo capítulo nas relações intercoreanas, fazendo renascer as esperanças de finalmente estabelecer a paz na região, pondo fim à guerra iniciada em 1950 pelo imperialismo estadunidense.
Foi também em Panmunjong que, três dias antes da nossa chegada, Donald Trump tornou-se o primeiro presidente estadunidense a cruzar a fronteira norte-coreana, onde foi gentilmente recebido pelo sempre sorridente e diplomático Kim Jong Un, o jovem líder do país socialista.
Assim, quando chegamos a Pyongyang as expectativas que pairavam na Península Coreana eram de pavimentar o longo, sinuoso e escarpado caminho para a paz.
Contrariamente ao que se difunde no Ocidente, a RPDC aposta no fim do conflito e das tensões. Foi o que moveu Kim Jong Un a propor na mensagem por ocasião do Ano Novo em 2018 uma série de passos concretos, que simbolicamente começavam pelo esporte, para a retomada de um diálogo com a Coreia do Sul, há tempos congelado.
Da iniciativa resultaram as trocas de visitas entre Kim Jong Un e Moon Jae In e os três encontros entre o líder da RPDC e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Das reuniões de cúpula entre a RPDC e os EUA, a realizada em Singapura em 12 de junho de 2018 foi a mais produtiva e carregada de significados. Ali firmou-se uma Declaração conjunta que a RPDC reputa como um “documento histórico” e em relação ao qual sua liderança faz reiterados apelos para que os EUA cumpram a parte que lhes cabe dos compromissos assumidos.
A RPDC assumiu responsabilidades para solucionar a sempre tensa questão nuclear. Não houve, contudo, a contrapartida estadunidense quanto à suspensão das sanções com que o imperialismo pretende estrangular a economia do país e criar um ambiente instável, propício a forçar uma mudança de regime. Estas sanções configuram um bloqueio de grandes proporções, impedindo ao país o acesso ao comércio internacional e a meios financeiros.
Os EUA não só não deram um passo sequer no sentido de suspender as sanções e aliviar o bloqueio, como tampouco atenderam outra exigência norte-coreana: a suspensão dos exercícios militares que habitualmente realizam na Península Coreana em conjunto com a ROK, que a RPDC considera uma ameaça à sua integridade territorial e soberania nacional.
Esta foi a razão pela qual fracassou a segunda cúpula entre Kim Jong Un e Donald Trump, de fevereiro último em Hanói. O presidente americano deixou claro que o alívio das sanções só viria depois que a RPDC destruísse seu arsenal nuclear.
Por seu turno, o líder da RPDC conhece o animus dos presidentes estadunidenses para com o seu país. Trump é o 13° com os quais a RPDC tem lidado desde 1945. O povo coreano e sua liderança conhecem-nos bem. Em agosto de 2017, o atual chefe da Casa Branca ameaçou tratá-los com “fogo e fúria”. George W. Bush, senhor da guerra no início dos anos 2.000, catalogou a RPDC como integrante do “eixo do mal” e décadas antes, no alvorecer da construção do socialismo, a RPDC passou a figurar oficialmente na lista dos possíveis alvos de um ataque nuclear dos EUA. E nunca foi retirada desse índex.
Este foi um dos temas que centralizaram os nossos debates com os cientistas sociais, quadros partidários e de organizações sociais com os quais tivemos a oportunidade de conversar durante os 15 dias da nossa viagem pelo território da RPDC.
Explicaram-nos com toda a clareza e sem rodeios que a Coreia Popular tem razões defensivas e dissuasivas que justificam o seu programa nuclear: “Ante a ameaça nuclear estadunidense, nosso arsenal nuclear constitui um freio à intenção de Washington de varrer a República Popular Democrática da Coreia”.
As agências noticiosas ocidentais reagem com estardalhaço ante as provas nucleares e de mísseis balísticos da RPDC, mas nada dizem da corrida armamentista tecnológica que os EUA pretendem impor ao mundo, um de cujos exemplares mais notórios é o artefato B61-12 com o qual renova as bombas atômicas instaladas na Europa e em bases militares na Ásia.
É necessário um estudo à parte para verificar a quantidade e capacidade dos armamentos nucleares em território sul-coreano, assunto sobre o qual há no Ocidente desinformação e tergiversação.
Para além da questão nuclear com as quais os Estados Unidos ameaçam os povos em nome dos seus interesses na região asiática, essa potência imperialista realiza sistematicamente exercícios de simulação de guerra contra a RPDC. Em parceria com a Coreia do Sul, o exército e a marinha de guerra dos EUA realizam as manobras militares denominadas Freedom Bolt, Team Spirit, Key Resolve, Foal Eagle e Ulji Freedom Guardian. Agregue-se a isso que os Estados Unidos mantêm um contingente de 20 mil homens na Coreia do Sul.
Nesse quadro, a pergunta que não quer calar é se os EUA irão suspender tais ensaios guerreiros e desativar seu dispositivo nuclear na Ásia.
Os Estados Unidos ainda não deram plenas garantias ao governo da RPDC de que renunciarão aos seus planos de bombardear o país com armas nucleares.
Os especialistas com os quais a nossa delegação se avistou afirmaram que “é necessário estabelecer um acordo de paz entre a República Popular Democrática da Coreia e os Estados Unidos”, acreditando que isto “resolverá o conflito da Península Coreana”. Recordam que “a RPDC já propôs a concertação desse acordo, a fim de promover a paz, a estabilidade, aliviar tensões e eliminar preocupações sobre a segurança regional e mundial”.
Por óbvio, o país não renunciará sem garantias plenas à sua política de defesa nacional. O soerguimento de um arsenal nuclear e a posse de um sistema de mísseis balísticos é considerada uma “medida defensiva orientada a salvaguardar a soberania do país e o direito da nação a sobreviver e proteger a paz da Península Coreana e a segurança da região”.
Na mensagem por ocasião do Ano Novo em 2016, Kim Jong Un ponderava que os Estados Unidos deverão acostumar-se à posição da RPDC como país possuidor de armas nucleares, dotado de plenas capacidades de represália a ataques nucleares e a quaisquer outras ações que violem a integridade territorial e a soberania nacional do país.
Ao longo destes três anos, a RPDC tem reiterado a vigência das propostas para a cessação das manobras militares conjuntas EUA-Coreia do Sul, oferecendo como contrapartida a suspensão dos testes nucleares. Igualmente, a RPDC insiste em assinar um acordo de paz, pondo fim à anômala situação de guerra, desde a assinatura do armistício em 1953.
Há, assim, perguntas a fazer à diplomacia estadunidense, sul-coreana e das potências ocidentais, ou mesmo à ONU: por que os Estados Unidos e a Coreia do Sul até agora não aceitaram firmar um pacto de paz com a RPDC?! Até quando o cenário político e militar na Península Coreana será percebido no mundo com um olhar unilateral?  Por que não são levadas em consideração as razões de defesa nacional que a RPDC invoca? São temas geopolíticos que requerem não apenas abordagem acadêmica mas respostas práticas, porquanto se referem também à paz mundial e à segurança internacional.
Essas respostas tampouco podem ser unilaterais e se revestir da forma de sanções. A tentativa de estrangular uma economia nacional como via para reverter regimes políticos é também uma forma de agressão e apresenta ao agredido o desafio de se defender com os meios que julgar adequados.
Os Estados Unidos, que deram início à escalada militarista e lideram a aplicação de sanções, assumiram formalmente em Singapura o compromisso de dar um passo atrás na execução dos seus planos agressivos. Mas até agora, as promessas de Trump ficaram no papel.
É interessante observar que a Declaração de Singapura de 12 de junho de 2018, um documento diplomático bilateralmente bem urdido, é ainda hoje, mesmo depois do fracasso da cúpula seguinte, de fevereiro de 2019 em Hanói, considerado pela RPDC como um documento histórico e com plena vigência. No entanto, já não se veem menções a ele nas posições do Departamento de Estado dos EUA nem nas considerações de especialistas em geopolítica e relações internacionais nas academias e nos meios de comunicação.
As razões invocadas pela República Popular Democrática da Coreia ligam-se ao princípio da autodefesa, direito de toda nação soberana, como pressuposto para construir um país forte, alcançar a reunificação da pátria e soerguer uma ordem econômica e social consoante a vontade de seu povo e suas peculiaridades nacionais.
A RPDC tem noção do mundo em que está inserida, da correlação de forças real, e não desconhece que é necessário envidar todos os esforços pela solução pacífica dos conflitos internacionais e por uma solução negociada ao problema nuclear na Península Coreana.
Tudo pelo desenvolvimento econômico
Durante a visita, constatamos que, sem abrir mão da defesa nacional, a República Popular Democrática da Coreia hoje concentra todas as suas energias na construção de sua força econômica, consciente de que a exacerbação de crises diplomáticas, militares ou mesmo a nuclear na Península não é favorável a esse objetivo.
A rigor, analisados friamente os fatos, a Coreia Popular não tem qualquer interesse de provocar quem quer que seja. Os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul, estes sim, deveriam desanuviar seu comportamento, prisioneiro de uma psicose de guerra e de posições preconcebidas sobre a RPDC.
Na mensagem de Ano Novo de 2016, Kim Jong Un explicitou que a tarefa prioritária do país passava a ser “o desenvolvimento econômico e a melhoria da vida do povo, razão pela qual a RPDC necessita mais do que nunca de uma situação estável e de um ambiente pacífico”.
O documento representou uma viragem política, um realinhamento da orientação norte-coreana: primazia ao desenvolvimento econômico.
Foi esse o debate central em que encontramos o país imerso durante os 15 dias da visita. Um debate de dimensões estratégicas, de caráter político e ideológico sobre a etapa atual da construção socialista.
A discussão tem por referência o discurso pronunciado por Kim Jong Un na primeira sessão da 14ª legislatura da Assembleia Popular Suprema, em 12 de abril deste ano.
“A tarefa principal que se apresenta ante nossa República na etapa atual da construção da potência socialista é consolidar o fundamento material do socialismo, concentrando todas as forças do país na edificação econômica” – esta é a diretriz fundamental do governo.
Sem abrir mão dos conceitos desenvolvidos anteriormente sobre a defesa nacional, a ênfase atual é a construção de uma “economia independente e poderosa”. A palavra de ordem é enfrentar e invalidar as sanções econômicas e financeiras.
Começa assim uma grande batalha para adequar a construção da economia socialista às condições do país, modernizá-la, informatizá-la e introduzir nela as últimas conquistas científicas da humanidade.
Nesta etapa, torna-se imprescindível o abastecimento de energia, combustíveis e matérias primas, e reativar a indústria metalúrgica e química.
No quadro do bloqueio e das tentativas do imperialismo de estrangular a economia do país e as condições de vida do povo, entra na ordem do dia a prioridade da segurança alimentar: “É necessário resolver o mais rápido possível o problema dos alimentos e dos artigos de consumo, de grande importância para melhorar a vida da população”, diz Kim Jong Un. E detalha: “No setor da agricultura é necessário prestar especial atenção ao abastecimento de sementes, água e terras cultiváveis, introduzir métodos de cultivo científicos, elevar o grau de mecanização do trabalho agrícola e atingir as metas estabelecidas para a produção de grãos”.
A RPDC deseja auferir os benefícios da revolução tecnológica e científica em curso no mundo. “Devemos modernizar a informatizar ativamente a economia nacional para convertê-la com segurança na economia do conhecimento”. “É preciso elaborar estratégias e metas para o desenvolvimento das indústrias mais avançadas como a mecânica, a eletrônica, a informática, a de nanotecnologia e bioengenharia”. (…) Em todos os setores construir fábricas e modelos que integrem as ciências, a técnica e a produção e tenham um alto nível de automatização, inteligência e capacidade de produzir sem a intervenção humana, com a finalidade de elevar o nível da economia em seu conjunto ao dos países avançados”.
Para isso a estratégia da Coreia Popular é desenvolver a economia local e ativar as relações econômicas com o exterior.
Consciente de que “os talentos, as ciências e a tecnologia constituem a principal força motriz para o desenvolvimento da economia independente”, o governo da RPDC lançou a palavra de ordem de “intelectualização de todo o povo”, o que implica um conjunto de medidas para elevar o nível educacional. Hoje a Coreia Popular assegura educação pública e gratuita a toda a população em todos os graus. E tornou obrigatório o ensino desde a escola primária até o pré-universitário.
Atualização da política externa
Como já tinha feito nas mensagens de ano novo de 2016 e 2018, também no pronunciamento perante a Assembleia Popular Suprema, em 12 de abril último, Kim Jong Un dedicou a máxima atenção à política externa.
Reafirmou a “luta histórica” da RPDC pela reunificação do país, por ele considerada como “anseio supremo da nação”. E valorizou as demarches diplomáticas dos últimos anos: “As três cúpulas históricas Norte-Sul do ano passado e as declarações nelas aprovadas propiciaram mudanças transcendentais nas relações intercoreanas”. (…) “Toda a nação deseja com veemência que se implementem cabalmente a Declaração de Panmunjong e a Declaração Conjunta de Pyongyang de setembro (2018), documentos de relevância histórica, de modo que continue reinando a atmosfera de paz na Península Coreana e as relações Norte-Sul continuem melhorando”.
O pronunciamento dedica amplo espaço às relações com os Estados Unidos. São palavras que deveriam ser seriamente tomadas em consideração pelas chancelarias mundiais, principalmente das grandes potências e pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Também as forças progressistas e amantes da paz em todo o mundo deveriam dedicar mais atenção ao estudo da diplomacia norte-coreana, isentando-se de qualquer preconceito.
“A cúpula RPDC-EUA – diz Kim Jong Un -, a primeira em toda a história realizada em Singapura em junho do ano passado, atraindo a atenção do mundo, foi um evento transcendental que deu a esperança de uma paz duradoura na Península Coreana. Por sua parte, a Declaração Conjunta RPDC-EUA de 12 de junho, que anunciou ante o mundo que os dois inimigos de séculos escreveriam uma história de novas relações, recebeu o total apoio e aprovação da comunidade internacional amante da paz”.
A RPDC está imbuída do sentimento de que deu os primeiros passos. Tomou importantes iniciativas no sentido da distensão, como a interrupção dos testes nucleares e de lançamento de mísseis balísticos intercontinentais. São passos que levam à criação de um ambiente de confiança que pode pavimentar o caminho para a paz.
Mas é óbvio que a RPDC não pode – nem deve – renunciar aos seus propósitos de independência e segurança, nem se deixar chantagear pelo mecanismo das sanções, como parece ser o jogo político e diplomático de Trump. Para além de ser um ato de soberania, é uma atitude que contribui com seu exemplo de firmeza e altaneria, com os próprios esforços das nações que lutam para preservar sua independência e defendem sinceramente a paz mundial.
Kim Jong Un sintetiza a política externa do seu país: “O governo da RPDC consolidará e desenvolverá os laços de amizade e cooperação com todos os países do mundo que respeitam a soberania de nosso país e o tratam amistosamente e avançará passo a passo com todas as forças amantes da paz no mundo para estabelecer um duradouro e sólido sistema de paz na Península Coreana”.
Como assinalamos, o centro da orientação atual é o desenvolvimento econômico e o enfrentamento das dificuldades impostas pelas sanções internacionais.
A Coreia Popular não quer o isolamento, mas não abre mão de sua independência. Com ou sem sanções, dizem os norte-coreanos, valerá sempre a consigna: apoiar-se nas próprias forças.
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Este artigo foi originalmente publicado na revista Esquerda Petista 
(*) Jornalista, editor da Página da Resistência [www.resistencia.cc], diretor do Cebrapaz e membro da direção nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)